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José Klock, ?delegado. (Foto: Rafael David)


Um dado alarmante e que assusta: somente neste ano, foram registrados 359 Boletins de Ocorrência (BOs) envolvendo a Lei Maria da Penha em Indaial. Denúncias que vão desde agressão, difamação, ameaça e injúria até estupro (a maioria tendo crianças como vítimas).

Na Delegacia de Polícia de Indaial, para prestar atendimento específico a esses casos, foi criado um Departamento da Delegacia da Mulher. Nele há o delegado José Klock, o escrivão João Paulo Anschau Krebs e a psicológa policial Sabrina Bet Machado.

"Ampliamos a Delegacia para criar esse departamento justamente para que as pessoas que passam por essas situações possam vir até nós diretamente e relatar o que houve, sem a necessidade de entrar na fila com os demais casos.

Até porque, devido à Lei, é preciso dar prioridade no atendimento a essas situações. Nossa equipe é eficiente e estamos aqui para ajudar a essas pessoas", garante o delegado Klock.

30 inquéritos de Lei Maria da Penha por mês

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João Paulo Anschau Krebs, escrivão. (Foto: Rafael David)
 

Segundo o escrivão Krebs, dos 359 BOs registrados em janeiro e agosto de 2017, 179 casos já viraram inquéritos policiais e foram enviados prontos para a juíza. "Há muitos casos que estão em andamento, mas todos os meses envio pelo menos 30 inquéritos prontos para agilizar o andamento desses processos", frisa.

Krebs diz que os casos mais incidentes em Indaial são de ameaça e lesão corporal contra a mulher, mas há ainda os estupros que, na grande maioria dos casos, envolve crianças. "Recebemos uma média diária de três denúncias envolvendo agressão contra a mulher e semanalmente há uma denúncia de estupro que, em 80% dos casos, ocorre dentro do âmbito familiar e por alguém próximo da criança", informa.

Não há necessidade de provas

Frente a isso, a psicóloga Sabrina faz questão de reforçar que, se tratando de casos da Lei Maria da Penha, não há necessidade de provas. "Há casos em que as mulheres não vêm ou não trazem seus filhos por achar que é preciso provar o abuso, mas na verdade se trata de uma legislação especial. Basta a suspeita para denunciar. Depois, aqui, cabe à nossa equipe investigar para saber se realmente aconteceu ou não", garante.

O conselho dela às mães que identificam algum comportamento estranho em seu filho como o fato de estar muito quieto, agressivo ou retraído, por exemplo, o levem até a Delegacia, visto que ali há um espaço projetado especialmente para atender às crianças, no qual é realizada uma abordagem diferenciada e um atendimento específico.

"A denúncia deve ser feita, tanto em casos que envolvem crianças quando jovens e adultos. Em briga de marido e mulher se mete a colher sim! Se alguém sabe que seu vizinho ou parente está sofrendo uma agressão deve denunciar. Essa atitude pode ser decisiva e, até mesmo, salvar uma vida", alerta o Klock.

É preciso denunciar sim

No caso de agressão, seja verbal ou física, o delegado Klock incentiva que as vítimas compareçam na delegacia para fazer a denúncia e relembra um caso que terminou de forma trágica há dois anos.

"Uma mulher vivia sendo ameaçada pelo companheiro e tinha medo de buscar ajuda e deixava a situação como estava na esperança de que aquilo melhorasse. Ela foi levando assim até que em uma noite o marido chegou embriagado e a matou e em seguida cometeu suicídio.

Essa mulher deixou seis filhos, seis crianças e jovens que agora irão crescer órfãos. Se trata de uma tragédia sem precedentes. Por isso reforço que situações de violência tem de ser levadas a conhecimento, até mesmo através do Disk Denúncia. É preciso evitar que casos como esses se repitam", desabafa.

Violência sexual contra menores e acobertamento

Outra situação que preocupa a equipe do departamento especial é o acobertamento de casos graves, como violência sexual contra as crianças. Klock diz que não é raro uma mãe saber que algo assim ocorre mas, por não acreditar que seja verdade ou ainda por ter medo, não faz a denúncia.

"Há inquéritos nos quais chego a indiciar a mãe por omissão ou, de certa forma, por ela estar acobertando o caso, defendendo o agressor. O estupro de um vulnerável é um dos crimes para os quais não se tem perdão", evidencia.

Sabrina diz que em muitos casos a criança acaba sendo envolvida de outras formas pelo agressor, criando um vínculo e depois sofrendo ameaças. "O pedido de segredo é comum e a vítima não entende direito o que está acontecendo. É isso que precisamos esclarecer para ela, já que em muitos casos a própria criança se sente culpada por estar revelando o que aconteceu. Já houve situações nas quais a denúncia veio da escola", diz.

Avaliação especial destinada às crianças

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Sabrina Bet Machado, ?psicológa policial. (Foto: Rafael David)
 

A psicóloga diz que para compor o inquérito policial é preciso contemplar o maior número de informações possíveis, sendo que o atendimento psicológico visa avaliar questões do lado emocional, comportamental e sintomatológica.

"Às vezes a criança não consegue nem falar sobre o que aconteceu, então conseguimos coletar essa informação através de táticas que possibilitam a ela contar como foi, onde, quando, quantas vezes, com quem, de que forma.

Fazemos um cruzamento de informações também fazendo uma análise das emoções dela, como alteração comportamental, rendimento escolar. Tento identificar no discurso se há alguma contradição, indícios de que ela esteja sendo induzida a falar aquilo ou que haja algum conteúdo fantasioso, embora seja raro acontecer.

A maioria dos casos que chega aqui de abuso sexual contra crianças é verdadeiro, mas temos que ter o cuidado de verificar essas informações para que o relato seja fidedigno", garante.

Acompanhamento de longo prazo

Sabrina ressalta que a grande maioria das crianças que são vítimas de abuso já sofrem a agressão há algum tempo. Por serem pequenas ainda, muitas vezes não entendem o que está acontecendo, mas conforme crescem percebe que algo está errado - é quando o caso vem à tona.

"A proposta aqui é fazer esse acolhimento, uma leitura processual e atendimento da criança para elaborar o laudo psicológico que irá compor o inquérito. E é esse encaminhamento que irá oferecer o acompanhamento sistemático via serviço de saúde e psicossocial no Creas para as vítimas", explica a psicóloga.

Assistência psicológica às mulheres

Quando os casos de agressão têm as mulheres como vítimas, a abordagem é diferente. É feita a localização Psicojurídica, na qual a vítima se localiza sobre o ciclo de violência que vem sofrendo.

"É comum também que essa agressão ocorra mais de uma vez com a mesma pessoa. O ciclo que mostramos tem três fases, a da violência, que é quando o abuso começa; a da lua de mel, quando ao agressor de arrepende e faz de tudo para reconquistar e a da tensão, quando a situação começa a se tornar preocupante novamente e acaba retorna à violência", explica Sabrina.

Ela diz que o trabalho realizado dessa forma é justamente para que a vítima possa entender o que está de fato acontecendo e interrompa esse ciclo. "A partir daí, ela poderá decidir o que irá fazer a respeito da situação", complementa Sabrina.

Ameaça é algo sério

Segundo o delegado Klock, uma discussão ou ameaça muitas vezes pode preceder uma agressão. Ele explica que feito o inquérito e a representação, inclusive a medida protetiva, as mulheres que muitas vezes retiram sua queixa voltam a ser agredidas em pouco tempo.

"A bandeira que levanto e defendo é a da família. Muitas vezes ela começa desestruturada e acaba em tragédia. Se tivéssemos um caso Maria da Penha por mês em Indaial já seria muito. Não é apenas uma mulher que sofre com a agressão, mas sim a sociedade inteira", reflete o delegado.

Para ele, há sim uma chance de zerar o número de ocorrências desse gênero, mas é um trabalho que envolve as polícias Civil e Militar, poder público, estadual e outras esferas - uma ação conjunta por um bem comum.

 "Temos que fazer uma polícia social, que faça a diferença. Pode ser que daqui há uns 15 anos essas pessoas que passaram por aqui hoje e tiveram uma palavra de alento façam a diferença também", diz.

50% de diminuição nos crimes de roubo

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Romildo Parno, delegado titular. (Foto: Rafael David)
 

Um resultado positivo que reforça a união das polícias Civil e Militar é o índice no que diz respeito a crimes de assaltos/roubos e furtos. O delegado Romildo Parno diz que são situações que no momento estão sob controle - mas o trabalho intensivo das guarnições nas ruas continua, para garantir o bem-estar e segurança da comunidade de Indaial, diminuindo cada dia mais o número de ocorrências.

"Há altos e baixos nesse quesito, mas no momento estamos dentro de um patamar que não é alarmante. Sempre é feito um trabalho estatístico também para saber o que está acontecendo e direcionar as atuações da polícia", explica Parno.

Neste ano, entre os meses de janeiro e agosto, o número de roubos diminuiu mais de 50% em comparação ao mesmo período do ano passado. Em 2017 foram registrados 30 BOs até o momento, sendo que em 2016 esse número já era de 64.

Nos furtos também houve diminuição. Nos primeiros oito meses de 2017 houveram 333 registros na delegacia de Indaial, e em 2016 eram 472 registros neste mesmo período.

Aumento no efetivo da Polícia Civil

O delegado Parno anunciou que neste ano houve aumento no efetivo da Polícia Civil de Indaial. "Estamos com três delegados que somos eu, o João da Cunha Neto e o Jose Clock. Há também mais três agendes para auxiliar nas investigações. As pessoas podem pensar que o número que ainda existe não seja o ideal, de fato não é, mas a diminuição é expressiva.

De forma geral, vemos a criminalidade aumentar no Brasil e aqui está diminuindo. O aumento do efetivo foi importante nesses resultados, visto que crimes como roubo demandam investigação e apuração. Mas com certeza iremos trabalhar para diminuir ainda mais essas ocorrências", garante o delegado.