"Não tem nem palavras para falar sobre o que aconteceu com ela. Até hoje não me conformei com aquilo. Ela saiu para trabalhar e não voltou mais". Essas são as palavras de uma mãe que, há um ano, perdeu sua jovem filha de 26 anos, que foi vítima de um homicídio em Benedito Novo.

A dona Magridt Venske Begalke, 56 anos e seu esposo Heinz Begalke, 55 anos, lembram com carinho e amor da filha Kathleen Thayse Begalke - mas há momentos em que a dor e a saudade falam mais alto. Durante a conversa que tive com eles, seus olhos brilhavam em um misto de admiração pela filha e indignação pela sua perda tão precoce.

"Ela era uma pessoa tão boa, cheia de saúde, sempre alegre e contente, era a alegria da casa. De repente as pessoas chegaram aqui e falaram que ela havia levado um tiro, não dá para acreditar", relatam os pais.

Kathleen trabalhava no mercado Mercavil da cidade há quase nove anos e, um dia antes do local ser assaltado e sua vida ser interrompida, ela havia feito aniversário. "No dia 5 de julho ela completou 26 anos e lembro que fomos na igreja, e lá eles cantaram parabéns para ela", recorda a mãe.

Na residência da família, em cada canto há uma recordação da jovem moça. Uma delas é um quadro da Cascata do Zinco, pintado por Kathleen em 2007, que está pendurado na parede da sala. No mesmo hack em que está a televisão, uma prateleira acima, há fotos que recordam os bons tempos.

Em uma delas, Kathleen está fazendo primeira comunhão ao lado de sua família e, na outra, ela está com 12 anos. Próximo às fotos há uma garrafa pintada à mão, outro trabalho feito por ela no Dia das Mães.

"Ela tinha capacidade de fazer coisas maravilhosas, era algo natural dela e ela gostava muito disso. Kathleen era detalhista com as coisas, sempre teve muita paciência. Acima de tudo, ela era uma pessoa de índole pacífica, não matava nem mesmo uma mosca", comenta o tio Martins Venske, 59 anos, que mora com os pais da sobrinha.

"Ali sempre vai ser o cantinho dela"

Kathleen era participativa nas atividades da comunidade. Era dedicada ao Reino de Deus e fazia parte do coral da igreja, onde auxiliava as crianças. "No último dia 9 fizeram uma homenagem à Kathleen na igreja. Ela sempre foi muito amada e prestativa", diz a mãe. Kathleen também participava do time de vôlei da cidade.

A família comenta que, nesse último um ano, a comunidade de Benedito Novo, além de pessoas de outras cidades, auxiliou e esteve presente na vida da família e deixam seu agradecimento.

O quarto de Kathleen permanece intocado. "Ali sempre vai ser o cantinho dela. Ela se ajoelhava às vezes ao lado da nossa cama e ficava acariciando o gato. Ou às vezes, quando ela estava no computador e a gente vinha conversar com ela ali. Agora, o banco que ela sentava está ali, mas a Kathleen não. Só sei dizer que é difícil, porque a pessoa que a Kathleen foi, não existe igual", relata o pai.

Relembre o caso

O assalto que tirou a vida de Kathleen aconteceu no dia 6 de julho de 2016, uma quarta-feira, por volta das 18h30min. Segundo relatos do gerente do mercado na época, Edemir Draeger, dois homens haviam chego em uma moto e um deles entrou no estabelecimento usando capacete e portando uma espingarda.

Ele anunciou assalto e não houve reação por parte das duas funcionárias que estavam no mercado naquele momento. Uma delas levou uma coronhada nas costas e, quando ele pediu o dinheiro à Kathleen que estava no caixa, a quantia de aproximadamente R$ 1 mil, tudo foi entregue a ele.

Mesmo não havendo reação por parte das mulheres, o homem efetuou um disparo de espingarda contra Kathleen, que a atingiu no ombro. "Acionamos o Corpo de Bombeiros Militar de Benedito Novo que a encaminhou até o Hospital e Maternidade Oase, onde foi atendida", relatou Dreager.

Segundo os pais de Kathleen, ela permaneceu consciente durante todo o tempo mas, ao ser levada para a sala de cirurgia, a bala acabou estilhaçando e espalhado dentro do corpo da jovem, que acabou vindo a óbito.

"Fui junto com a Kathleen até o hospital, preenchi a ficha dela e fiquei aguardando ela sair da cirurgia. Ela faleceu por volta das 22h e às 23h nós fomos comunicados. O médico me conhecia e me chamou pelo nome para me falar o que havia acontecido. Logo imaginei que havia algo errado, ele parecia assustado", relembra Heinz.

A busca por justiça continua

Após o ocorrido, a Polícia Militar (PM) realizou incansáveis buscas pelos suspeitos do crime e, no dia 15 de julho de 2016, efetuou o mandado de busca, apreensão e prisão em Benedito Novo e Blumenau dos responsáveis pelo assassinato de Kathleen.

A operação que resultou na prisão dos homens foi uma ação conjunta entre a Polícia Civil e a PM de Benedito Novo, Blumenau e Timbó. Na época, o autor do tiro que tirou a vida da jovem confessou que havia atirado, mas disse que o disparo foi acidental. As condenações ocorreram neste ano. Um dos envolvidos foi condenado a 28 anos de reclusão por latrocínio (roubo seguido de morte) e o outro a 27 anos - ambos já estavam presos desde julho de 2016.

"Sabemos que eles estão presos, mas nada trará a vida da nossa Kathleen de volta. O que esperamos e pedimos é que eles permaneçam presos e não tenham a oportunidade de sair de lá e cometer outro crime, tirar a vida de outra pessoa inocente. Os seres humanos voltaram à época da barbárie, a vida para muitos não vale nada, matar um ou dois não faz diferença. Não vivemos em um lugar sem lei, ainda existem as leis. Falta o respeito a elas", desabafa Martins.

Passado um ano de sua partida, é preciso mais uma vez refletir:

Quanto tempo temos gasto com nossa família? Quantas desculpas temos dado para não abraçar um filho, um pai, uma mãe? Quantos pretextos para adiar a visita a alguém? Ou para adiar um trabalho voluntário? Por que em nossa vida, colocamos um preço em tudo? Nesse sentido Kathleen fez o que Jesus fez: não veio para ser servido, mas para servir (Mateus 20.28).

Fez por que tinha tempo de sobra? Ou fez por que escolheu servir? Não podemos esperar sobrar tempo. Não podemos esperar que as condições sejam todas favoráveis. Não podemos esperar que nos reconheçam em todas as nossas ações. Precisamos apenas fazer. Fazer como a Kathleen fez. Precisamos ter um pouco desse desejo de servir alguém. Seja com palavras de apoio, com um recurso financeiro, com um pouco do nosso tempo, com algum serviço pelo qual não sejamos pagos em dinheiro.

A paz mais verdadeira e duradoura que podemos sonhar passa por uma sociedade menos competitiva e mais colaborativa, de mais apoio e doação mútua. São todas lições que já sabemos, nos falta às vezes aplicar. A Kathleen aplicou. Sua vida terminou. A nossa continua. Qual escolha faremos?

Com carinho, grupo de vôlei da segunda-feira.

"As pessoas têm uma presença aqui na terra de uma forma tão especial. Praticamente tudo me lembra ela, às vezes até tento pensar em outra coisa, mas é difícil. Convivi com ela esses 26 anos e um dia. Foi tão repentino e é difícil acreditar", Martins Venske

"Eu só sei dizer que sinto muita saudade dela. Quando vou no cemitério, tem a foto dela lá e sempre penso que isso não pode ser verdade. É tão difícil. Semana passada fomos duas vezes, na quarta-feira e na quinta-feira. Cada dia é uma eternidade longe dela", Magridt Begalke

"Ela sempre vinha e dizia: cheguei. Agora você olha e não tem sábado ou domingo, não tem nada, só um vazio. Só quem passa por isso que sente, não existem palavras", Heinz Begalke

"Isso ficará para sempre guardado na ternura e na sinceridade do nosso cantinho da saudade"